quarta-feira, 10 de outubro de 2012

De ônibus, Dona Benta e mochileiros.

Terça-feira, oito da manhã, ônibus vazio_uma raridade!_ uma senhorinha simpática, dessas que se parece com a dona Benta do Monteiro Lobato, se sentou do meu lado. Pensei logo cá comigo: vai querer que eu conte a vida toda. Me cumprimentou, perguntou como andava a vida_ até então eu estava certa_ e quando eu perguntei como ia a sua vida, ela olhou longamente pela janela: "não vai como eu gostaria criança." Quando quis saber se era algum problema de saúde que lhe afligia, ela disse que não, eram os males do coração. Um mal específico que perdurou por muitos e muitos anos. Troquei, curiosa, de papel com ela. Chamava-se Dalva, como a cantora do Trio de Ouro do rádio, era viúva, mas o falecido não era o espinho que lhe atormentava a alma.
"Tudo era muito difícil quando era mais nova, hoje ainda é, mas é tão mais fácil pra vocês. Não lembro o nome dele, a memória quando se chega a minha idade, já não é das melhores, mas era um rapaz bonito... os olhos dele se pareciam com os seus, assim brilhantes, curiosos_ até então jamais desconfiei que tinha olhos curiosos_ eu era mais velha que ele, que era um desse mochileiros, entende o tamanho do problema?_ como eu entendia!_ Mesmo assim namoramos por um tempo, naquela época ainda era comum isso de casar virgem, hoje anda fora de moda_ ela iria falar mesmo disso comigo, uma completa estranha?_ o ponto é que não me casei com ele, mas compartilhei ao lado dele, a melhor noite da minha vida!"_ à essa altura eu, apesar de meio constrangida, parecia uma criança ouvindo o mais belo conto de fadas que já existiu.
_ E o que se fez do seu cavaleiro andante?
_ Sumiu, foi desbravar o mundo... Procurar a felicidade debaixo das pedras.
_ E te abandonou?
_ Eu o abandonei menina, abandonei quando me recusei largar minha casa, meu conforto e ir com ele mundo à fora.
_ Por onde ele anda hoje?
_ Hoje não anda mais, me espera do outro lado... Pelo menos foi isso que ele prometeu fazer da última vez que nos vimos. Prometeu que me esperaria pra entrarmos no céu de mãos dadas.
A simplicidade com que ela falou e a espontaneidade me chocaram, momentaneamente, pois tão logo me admirei, voltei ao mundo real_onde senhorinhas simpáticas dificilmente se apaixonariam por mochileiros e se abririam assim para uma desconhecida_ e o próximo ponto era o meu.

Nenhum comentário:

Postar um comentário