domingo, 12 de agosto de 2012

De estranhos, ilhas e medos.

Ela acordou de mau humor_ noite mal dormida dos infernos_ engoliu o café preto que desceu queimando sua garganta, apanhou as coisas na mesa perto da porta e saiu correndo.
Tropeçou até o trabalho, e na hora do almoço, descendo a rua da Bahia cruzou o olhar de um estranho _ estranho de fato, era cruzar seu olhar com o de alguém, todo mundo tão apressado! Ninguém olhava para cima, ou para os rostos alheios._ e pelo resto da tarde, enquanto o zumbido do escritório continuava o mesmo, pensou no estranho.
Não no ser em si, mas a sensação que lhe provocou: num olhar tão breve, sentiu a alma escancarada, para quem quisesse ler todos os seus medos, todas as suas duvidas. Quanto tempo já não olhava dentro dos olhos de alguém e o lia?
Há quanto tempo esperava o ônibus com as mesmas pessoas_ a moça baixinha de terno bem alinhado e saltos, o rapaz de óculos e camiseta com alguma piada interna e o casal apaixonado de namorados_ e não sabia se aquele casal era de fato apaixonado, ou se o rapaz era mais que a fachada de games e HQ's, e qual  história aquela moça de salto e nariz empinado tinha pra contar.
Há quanto tempo vivia para si e ia esquecendo do mundo? Quantas outras pessoas também o faziam!
Há quanto tempo tinha se tornado aquela ilha?
E se desaparecesse ali, alguém notaria? Alguém saberia que ela esteve ali, que naquela manhã acordou com o pé esquerdo?
E perdida na maré de duvidas que tomavam conta de si, descobriu que lhe faltava algo em que se segurar, se sentiu pequena.
Correu pra casa, se enfiou nas cobertas e esperou pelo medo passar.

Nenhum comentário:

Postar um comentário