quinta-feira, 16 de junho de 2011

O que fazem os vagalumes de dia - Luiz Fernando Veríssimo.



    " - Pa-ô-la (desde o começo ele a chamara assim, como se o nome dela fosse espanhol), este nosso caso... 
    - Que caso?
    - Nós não estamos tendo um caso?
    - Que idéia, Dan!
    Ele se chamava Daniel.
    - Se nós não estamos tendo um caso, estamos tendo exatamente o quê?
    - Sei lá, mas caso não é.
    - Pa-ô-la...
    - Caso é assim uma coisa clandestina. Adultério. Precisa ser casado.
    - Acho que quando tem sexo no meio, é caso. Independente do estado civil.
    - Que idéia! Nada disso. O que nós estamos tendo é um namoro.
    - Não. Namoro eu conheço. Não é namoro.
    - Então é amizade. Só porque a gente dorme junto não pode ser amizade?
    - Pa-ô-la. Há sete meses nós só dormimos um com o outro. Nos vemos todos os dias. Andamos abraçados na rua.
    - Então. Uma boa amizade.
    - Comemos sorvete de casquinha com a mesma colher, Pa-ô-la.
    - E daí?
    - Em certas sociedades primitivas, comer sorvete de casquinha com a mesma colher vale mais do que pacto de sangue.
    - Não vem.
    - E o que você diz quando você está tendo um...
    - Eu sei o que eu digo!
    - “Dan, Danzinho, amor, vida, paixão.”
    - É a emoção, ora. Nessas horas a gente diz qualquer coisa. Uma amiga minha grita o nome de todos os apóstolos. E você, que quando me vê só falta chorar? Mesmo que a gente tenha dormido junto na noite anterior. Oito horas sem me ver e faz um escândalo.
    - Mas eu estou tendo um caso com você. Um caso muito bonito. Pena que você não esteja participando dele.
    - Não vem, Dan.
    - Não. Tudo bem. Somos apenas bons amigos. Onde está escrito “Dan, Danzinho, amor, vida, paixão”, leia-se “Ai que bom”.
    - Está certo. Não é amizade. Mas não é caso.
    - Romance.
    - Também não.
    - Um espasmo. Um descontrole hormonal.
    - Pára.
    - Uma história.
    - Isso. Uma história. Está rolando uma história entre nós.
    - Que tipo de história?
    - Como, que tipo?
    - Cômica, séria, trágica... Acaba como?
    - E eu sei?
    - Só pra minha orientação.
    - Por que isto, de repente? Por que esta preocupação? Estamos tendo um ca... uma história legal, sem grilo...
    - Mas nós não sabemos o que é. Você não tem necessidade de saber o que está acontecendo com você?
    - Pra quê? Deixa acontecer.
    - Imagina se esta história acaba num crime. Tudo que está acontecendo agora ganha outro significado. Nós podemos estar vivendo o prólogo de uma tragédia sem saber. Se a gente soubesse o que é, e como acaba...
    - Ah, é? Se eu soubesse que você ia me matar no fim, sabe o que eu fazia? Matava você agora. Rá, rá. Mudava o fim.
    - Exatamente! Nós precisamos saber o que está nos acontecendo para agir conscientemente, para aproveitar melhor a história e até mudá-la.
    - E, mesmo, você é incapaz de matar uma mosca.
    - Mas você não me viu com mosquitos.
    - Quer saber de uma coisa?
    - Uma vez, quando eu era guri, desmembrei uma formiga. Você não me conhece.
    - Me ouve.
    - E se esta história acaba em casamento? Filhos, essas coisas. Hein? E se acaba em almoços de Domingo e planos de saúde? Nós precisamos saber no que estamos nos metendo!
    - Sabe que eu acho que vou mesmo matar você? Assim você fica sabendo o fim e pára de chatear.
    - Pa-ô-la...
    - Taí. É um conto.
    - Um conto?!
    - Daqueles que começa no meio de um diálogo, não acontece nada e termina no ar. Ninguém fica sabendo o que vai acontecer depois.
    - Não faz isso comigo, Pa-ô-la.
    - Com um título que não tem nada a ver com nada.
    - Um conto, Pa-ô-la? Isto é só um conto? Um naco de história? Um diálogo perdido? Um..."

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